quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Quando a noite vem

Ele não me inspira. Ele não me faz querer escrever, nem ficar pensando em escrever, nem pegar a caneta e olhar pra uma folha em branco. Ele não me inspira. Nem o jeito como ele me pegou de jeito, nem a respiração dele no meu pescoço ou a voz dele ofegante no meu ouvido ou como a gente se encaixou mais de uma vez, aqui, ali, desse jeito, assim, isso. Ele não me inspira, não me inspira nem um pouco. Eu não penso em rimas quando penso nele, não penso em versos nem em músicas, nem quando escuto Tatuagem e penso que quero brincar no teu corpo feito bailarina que logo se alucina quando a noite vem, porque eu quero, eu quero mesmo, língua e mãos e sexos entrelaçados, dando nó, ritmados, enquanto eu digo o que você me pede pra ouvir do jeito que eu gosto de falar. Ele não me inspira, não me faz comer os dedos de ansiedade, perder o sono, olhar pra porta, esperar, ensaiar, criar planos, desculpas. Eu nem me lembro que cheiro ele tem, se tem pelos muitos ou poucos ou uma tatuagem que a penumbra, a embriaguez e o desejo não me deixaram ver. Ele não me inspira, não, não até nos músculos exaustos do teu braço repousar frouxa, murcha, farta, morta de cansaço, vestir a roupa, sair pela porta e voltar nem sei. Ele não me inspira.

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