Podia ter acabado numa manhã de domingo, enquanto você dormia pesado e eu saía de fininho com os sapatos na mão, só os calçaria depois que entrasse no elevador, e quando você acordasse eu já estaria longe, eu já estaria debaixo do chuveiro da minha casa, não adiantou nada você se vestir correndo e descer pra perguntar de mim no ponto de táxi, você perceberia então que nem adiantaria me procurar, que eu tinha decidido ir pro meu lado e te deixar no teu e que aquela última noite, que foi a melhor de todas, foi a melhor de todas porque era uma despedida.
Ou podia ter sido na mesa do bar, numa daquelas conversas cheias de silêncios incômodos e olhares desviados e vontades declaradamente diferentes, eu querendo mais e você querendo menos e nós dois querendo apenas que acabasse logo já que não queríamos mais a mesma coisa, e entre um gole e outro nós prometemos que continuaríamos amigos e que a única coisa que mudaria seria o sexo que não existiria mais, até que nos despedimos sem saber muito bem onde colocar as mãos e os lábios e eu fui na direção do metrô e você na direção da sua casa, nenhum de nós olhou pra trás.
Talvez pudesse ter sido numa discussão de gritos e copos quebrados e vinho derramado no sofá, e você se defenderia de todas as palavras e objetos que eu jogaria na sua cara, eu nunca te prometi nada, você disse, promessas não se fazem só de palavras, eu respondi, pensei que fossemos adultos, eu também, você tentaria me segurar e me abraçar e eu te diria pra tirar as mãos de mim, que nunca mais queria sentir as suas mãos em mim, e você tentaria mais uma vez e mais uma e outra mais até que eu cedi e minha blusa foi parar entre os cacos de vidro no chão e na manhã seguinte eu sairia antes que você acordasse para nunca mais voltar.
Podia ter acabado como acabou, com a distância estendida num fio que se estica aos poucos até arrebentar e as duas pontas ficarem tão longe uma da outra que não podem ser atadas por outro nó ou laço, mesmo que por vezes ainda possam se ver ou sentir a presença uma da outra, tão desgastadas que estão que já não se amarram mais em nada ou ninguém.