quinta-feira, 12 de abril de 2018

Reunião

Tatalo, como sempre, foi o primeiro a chegar, e ficou lá, de terno e gravata - sempre foi um homem de ternos bem cortados - em meio aos arranjos todos, na sua espera por todos os outros.

Lorena e Caio chegaram em seguida. Sempre haviam sido os mais próximos a Tatalo e queriam estar ali antes de todos, tinham muito o que dizer a Tatalo, Caio e Tatalo se conheciam desde os tempos do colégio e Caio nunca achou que viveria pra ver esse dia. Foi Tatalo quem apresentou a Lorena, a prima gata de Minas que tinha se mudado pra São Paulo pra fazer faculdade de moda. Se não fosse por Tatalo, Caio e Lorena nunca teriam se casado, e os gêmeos não estariam agora com a babá, não dava pra trazer os meninos.

Mais amigos foram chegando, aos poucos, alguns juntos, outros sozinhos. Antônio, Porra, Tatalo, chegou com sua voz grave, o que tinha de altura, Tonhão tinha de coração. Marina, Tita e Bia racharam um uber e chegaram ao mesmo tempo que Beto e Alícia. Felipe e Edu vieram de carona com o Rogerinho, moravam todos mais ou menos perto.

Chegaram os pais, chegaram os parentes, chegaram os colegas da firma, todos aos poucos foram formando grupos, o burburinho das conversas aumentava enquanto Tatalo continuava no mesmo lugar.

Sabe, o Tatalo foi o primeiro cara com quem eu transei, a Marina disse, e as amigas disseram que sim, sabiam, mas o que elas não sabiam, Marina continuou, é que eles nunca deixaram de se ver longe dos outros, nunca deixaram de transar, o Tatalo foi o melhor sexo da minha vida, mas não era só isso, eu amava o Tatalo, ele me amava também, mas ele não quis desistir do casamento, sabe, eu tentei. Bia e Tita desconfiavam, por que você nunca contou pra gente? Eu não sei, porque vocês eram amigas dela, vocês trabalhavam juntas, vocês que apresentaram ela pro Tatalo.

Porra, puta zagueirão o Tatalo, Rogerinho falou e Tonhão, Beto, Felipe e Edu assentiram, agora acabou o futebol da quarta, acabou a defesa, ninguém marca como o Tatalo. Caio lembrou o interclasses de 98 no Colégio São Sebastião, quando Tatalo salvou um gol em cima da linha e saiu da quadra carregado pelo 2o ano todo. Melhor zagueiro, o Tatalo. É, o futebol da quarta agora acabou mesmo.

A gente não podia ter escolhido padrinho melhor pro João, né, Lô, Caio disse, se pudesse teria colocado ele como padrinho dos dois, mesmo ele sendo solteiro na época, a gente nunca ligou muito pra isso, mas tinha o irmão do Caio também. Pois é, a gente também sempre pensou em chamar o Tatalo pra padrinho quando a gente tivesse um filho, Alícia disse e Beto concordou. Ele sempre foi muito presente na vida do João, agora não sei como vai ficar, Beto falou. Vamos ver.

De repente, o silêncio tomou conta do do espaço. Todos se emocionaram quando a noiva entrou, acompanhada do pai, carregando rosas brancas. Deu um beijo longo em Tatalo, murmurou palavras que não havia ensaiado pra que só ele pudesse ouvir. Estavam juntos, afinal, selavam com beijos a sua união.

Felipe, Edu e Rogerinho se juntaram à Tita, Marina e Bia, que já encostou a cabeça no ombro do Edu, com quem sempre teve um lance mal resolvido. Tonhão chegou mais perto, muito emocionado, pegou a mão da Tita e não largou mais. Caio e Lorena, Alícia e Beto também se juntaram ao grupo, que ria ao lembrar da viagem pra Trindade cinco anos atrás, quando o Tatalo, que sempre tinha sido super controlado, bebeu tanto e fumou tanta maconha que resolveu que queria nadar pelado e saiu da pousada já sem roupa, lembra que a gente foi atrás com medo de dar algum B.O. mas a gente também tava bem louco? Nossa, foi a última vez que a gente viajou todo mundo junto, a gente sempre fazia isso. Pois é, aliás, antes de hoje, nem lembro quando foi a última vez que todos nós nos encontramos, assim, todo mundo mesmo. Acho que foi no casamento do Beto e da Alícia, não foi? Porra, mas faz o que, três anos já! Pois é. Pois é.

O pai da noiva falou, os pais de Tatalo falaram. Caio quis dizer algumas palavras, as amigas olharam pra Marina esperando que ela falasse algo, mas ela achou melhor não. A noiva agradeceu a presença de todos, era muito bom ter a família e os amigos compartilhando aquele momento.

Então a voz da Nina Simone cantando My Way invadiu o salão. Tatalo sempre disse que queria essa música. E enquanto a Nina cantava, os amigos se olharam, olharam para Tatalo.

Era, definitivamente, a última vez que estariam todos juntos.

20 de julho, manhã

Os prédios da XV de Novembro continuam tão altos e imponentes como da primeira vez que pisei ali, já nem me lembro quanto tempo faz. Acho q...