sábado, 21 de julho de 2018

20 de julho, manhã

Os prédios da XV de Novembro continuam tão altos e imponentes como da primeira vez que pisei ali, já nem me lembro quanto tempo faz. Acho que são das poucas coisas que não mudaram de proporção depois que cresci; talvez por estarem paralelamente tão próximos uns aos outros, parecem sempre mais altos do que são de fato. Nunca consigo passar por ali sem imaginar o vai-e-vem de homens e mulheres empertigados com seus chapéus e o toc-toc toc-toc dos sapatos pisando os paralelepípedos sendo vez por outra emudecidos pelo ranger dos bondes sobre os trilhos. Será que por ali passavam bondes? Será que por debaixo das pedras portuguesas jaz o que sobrou dos trilhos? Hoje já quase não se escuta o barulho das solas contra o calçamento, um locutor anunciava promoções de uma loja, e no Largo do Café um homem tocava gaita de fole, aquela mesmo, bagpipes, a dos britânicos; só mesmo em São Paulo, numa manhã de sexta, dia útil, haver um homem tocando música brasileira - era brasileira a música, mesmo que agora não me lembre qual exatamente - numa gaita de fole, enquanto do lado de dentro dos prédios são definidos os valores do dinheiro, são vendidos pastéis de nata quase iguais aos da terrinha, são fotografadas as paredes e as salas do Empire State tupiniquim. Compra-se ouro e vende-se de tudo um pouco por aquelas ruas, para quem sabe onde ir. Pastores pregam nas calçadas enquanto santos repousam nas igrejas. Novos hippies e refugiados oferecem suas mercadorias. Sotaques de todo canto, de gente que veio e ficou, de gente que está só de passagem, e como eu gosto de ouvir sotaque de gente que está só de passagem, como eu gosto de saber que eu não sou a única turista por ali, como eu gosto de pensar que existe gente aprendendo a amar os prédios altos e imponentes e a calçada por onde antes passavam bondes e os sons e as vozes e as cores e todo esse caos organizado e a história, talvez tanto quanto eu ame isso tudo, mesmo nos dias que odeio isso tudo. São Paulo hoje me engoliu, São Paulo me engole todos os dias, e eu gosto, gosto de me sentir uma com essa cidade que eu não escolhi, mas que é minha tanto quanto eu sou dela.

20 de julho, manhã

Os prédios da XV de Novembro continuam tão altos e imponentes como da primeira vez que pisei ali, já nem me lembro quanto tempo faz. Acho q...